Sem Título-1

Saímos de casa atrasados, para variar, e corremos ao ponto de ônibus.

Pergunto à Glória:

– Que horas são?
– Quatro e vinte, pra quem tinha marcado as três estamos só uma hora e vinte atrasados.
– A gente sempre se atrasa.
– Acontece.
– É… Eu tava pronto na hora.
– Então com “a gente” tu quis dizer eu?!
– Cadê esse ônibus? A gente vai chegar lá só no final.
– Vamo pega um táxi então.
– Não, agora vamo espera! Não vamo joga dinheiro fora!
– Tá…
– COMO É QUE NÃO TEM ÔNIBUS DOMINGO NESSA MERDA!
– Vamo pega a porra do táxi – ela acena para o táxi.
– Não praqu…
– Agora eu já chamei.

O táxi pára, entramos. O taxista, que usava roupa social, pergunta:

– Para onde?
– Pro anfiteatro Pôr do Sol, por favor – diz ela

Silêncio mortal.

Olho para a Glória no banco de trás.

– Desculpa por ser tão reclamão.
– Tudo bem. Desculpa me atrasar.
– Sério, eu sempre me atraso também e fico reclamando.
– Tudo bem, sério, agora a gente já ta indo.
– Te amo.
– Te amo.

Silêncio mortal.

– Vocês preferem ir pela perimetral ou por dentro? – o taxista formalmente pergunta.
– Melhor ir por dentro, até porque a faixa vai ta engarrafada né – respondo-o.
– Acredito que sim.
– Até por que hoje teve protesto dos coxinhas.
– Sim. E teve o coxinhaço também na cidade baixa – acrescenta Glória.
– Coxinhaço?
– Sim eles assaram umas galinhas lá na CB pra protestar contra os coxinhas.
– SÉRIO ISSO?!
– Sim.
– CARALHO! Aí sim hein? Esse é um protesto que vale a pena, pensa bem, tu pode ou ficar andando de um lado pro outro com um monte de tonto ou comer um churrasco de graça, eu não ia querer outro protesto.
– É mas não é de graça, o pessoal se juntou e cada um levou uma coisa.
– Mesmo assim.

Silêncio mortal.

– Que horas são? – pergunto.
– Quatro horas e meia – prontamente responde o taxista andróide extremamente polido.
– Tamo atrasado pra Ivetinha da Alegria e o Criolo Doido aliás, tu já penso numa coisa?
– O que? – pergunta a Glória.
– Esse show vai ser a junção dos coxinhas e dos petralhas em uma grande festa de confraternização.
– É verdade vai ter a Ivete e o Criolo.
– SIM! Ivetinha da Alegria denominada de vulcão, a cantora preferida de nove entre dez coxinhas, junto com o Criolo Doido que é o maluco preferido de nove entre dez petralhas,
cantando Tim Maia juntos. TIM MAIA, O SÍNDICO DO NOSSO BRASILSÃO!
– Imagina os petralhas e os coxinhas cantando juntos lado a lado.
– CARALHO! ESSE SHOW PODE MUDAR TUDO!

Silêncio mortal.

Pegamos a sinaleira mais demorada de Porto Alegre, e quando estava prestes a morrer de tédio dentro daquele Celta vermelho, Nelson do Cavaquinho aparece para me salvar, começo a cantarolar:

– O Sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de voltar aos corações…

Começo a ouvir algumas batidas estranhas, quando olho pro taxista mais inadequado para a profissão de todos os tempos, tentando batucar com os dedos no volante.
Fico estarrecido em saber que aquele robô que guiava o veículo conseguia ter algum tipo de sentimento, principalmente pelo samba, continuei a música, a sinaleira abriu.

Silêncio mortal.

O carro estaciona.

– São dezessete reais – fala o taxista andróide tocador de pandeiro.

Descemos do táxi, vejo a procissão que se encaminha em direção ao show, vejo um céu de fim de tarde com nuvens cor de chá, um presente pra quem achou que choveria o dia todo, ouço a música começando ao longe, respiro fundo e penso:

“Esse dia pode mudar tudo”

Não mudou nada.

Muscario Xavier
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