The-Giver-Brenton-Thwaites-character-poster-691x1024Respire fundo. Esqueça tudo que sente. Se imagine em um mundo perfeito em que não existem diferenças, em que todos são iguais, em que sua família é escolhida para você, doenças foram dizimadas, assim como fome e desastres naturais. O mundo perfeito é onde encontramos Jonas, um jovem às vésperas de se encaixar em um setor profissional, baseado em suas aptidões físicas e mentais, assim como Tris, em Divergente. E, assim como Tris, Jonas não se encaixa em nenhuma profissão desta nova realidade pós-apocalíptica, ele na verdade transita entre todas as aptidões e, portanto, tem o perfil para receber o legado de lembranças da humanidade, que jazem dentro da mente do homônimo do título, o Doador de memórias (Jeff Bridges).

Já comentado aqui, os novos romances juvenis têm trazido consigo essa dimensão supostamente perfeita que deve ser quebrada – muito melhor do que a febre anterior de vampiros que brilham no escuro! Jonas, ao receber a autorização para mentir (até então algo proibido) e quando começa a ser concebido com as lembranças dadas pelo doador, começa a sentir. É interessante a interpretação do filme, de que um remédio dado em doses diárias nos tiraria também a possibilidade de sentir, de ver cor, de amar – faço um paralelo ao que acontece com nossas vidas em nosso cotidiano conturbado, em que nos deparamos com a conformidade da vida contemporânea de ir ao trabalho, voltar, comer, dormir, ver tv (sem perceber que estamos vivendo, e não sobrevivendo) – para se ter noção, 2013 foi o ano em que cerca de 42% da população não consumiu cultura fora de suas casas. Assim como Tris e Katniss, Jonas parte em sua jornada de rebeldia aos parâmetros da atual civilização (liderados pela sempre maravilhosa Meryl Streep). E assim como seu homônimo da Bíblia, parte em uma jornada (comissionada por seu mestre Doador – em um paralelo ao Deus bíblico) rumo a salvação de um povo que é violento, não em questões físicas, mas em limitar a liberdade de se viver sem emoção.

Um filme doce, que impõe sérias questões ao nosso sobreviver contemporâneo, esperando, assim como acontece depois de 15 minutos de película, dar mais cor ao nosso cotidiano. E quem não gostaria de ter Jeff Bridges como Deus, não é mesmo?

sq_million_dollar_armAviso aos amantes de ‘Jerry Maguire’, assistam a esse filme. Pode não ter a participação ácida e emocionante de Cuba Gooding Jr, nem os espasmos bizarros da cientologia ambulante que é Tom Cruise, mas tem muito do ambiente e do coração do filme que eternizou o amado ‘SHOW ME THE MONEY’. Embora não tenha astros jovens de peso, como Cruise ou Gooding Jr., ‘Million Dollar Arm’ trás consigo uma plotline meio parecida em seu começo: um agente que não está mais na empresa em que trabalhava, que é passado para trás por um atleta de contrato milionário, e que tem que se virar. Além disso, ambas personagens que fazem os agentes esportivos são esnobes e têm que passar por obstáculos para verdadeiramente perceberem o que o esporte trás embutido em si, valores mais importantes que dinheiro ou fama (embora eu e Razuchi discordemos desta parte – ‘dinheiro e gatinhas’ é nosso lema!).

Jon Hamm faz o papel do pedante JB, agente que um dia teve uma cartela enorme de clientes e que, há três anos, junto com seu grande amigo Aash, montou sua própria empresa. O encontramos tentando fechar negócio com um linebacker da NFL, mas o contrato não desenrola e eles se veem rumo a falência e vão tomar um porre pra esquecer. Como Aash é indiano, em meio a sua bebedeira, sintoniza a TV no jogo de críquete, que JB (como seria de praxe da personagem) já começa a implicar com. Aash vai embora rumo a esposa e filhos em um taxi, e JB fica a contar botões, até que Susan Boyle (SIM! SUSAN BOYLE!) aparece pela primeira vez no ‘Britain’s Got Talent’, estamos em 2008, por sinal.

Como acontece em muitos casos, o insight vem de coisas desconexas que, por alguma razão, começam a fazer parte da mesma simbiose, e JB tem uma ideia de gênio: desenvolve um concurso em que dois jovens indianos têm a chance de fazer um tryout (aqui é chamado de ‘peneirão’) para uma vaga na Major League Baseball e, se ganhar, ganham 1 milhão de dólares, daí o título não somente do filme, como também do concurso. Uma jogada de gênio, em que a MLB poderia entrar em um mercado de um bilhão de possíveis espectadores, e tiraria JB e Aash da falência.

Isto tudo parece mentira, coisa viajante de roteirista, mas devo dizer que o filme é baseado em fatos reais. Este concurso existiu de verdade e dois meninos indianos vieram para este lado do globo tentar a sorte como possíveis jogadores de baseball. Joguem ainda nessa tigela participações de Alan Arkin (sempre excelente) como o único e sempre dormindo olheiro disposto a ir a Índia, uma jornada por um país de extremos (uma hora está tudo cheirando maravilhosamente bem, outra hora está tudo fedendo) até bem parecido com o Brasil (vide a maneira de burlar o sistema…), e a, por falta de outra palavra, maravilhosa Lake Bell como a vizinha médica, além da trupe de indianos, em especial Amit, que sonha em ser técnico de baseball na Índia. Todos funcionam como agentes catalisadores das mudanças de JB para uma pessoa melhor, mesmo que esse melhor não seja com dinheiro e gatinhas…

Chef-PosterModéstia a parte, acredito que este texto tenha virado mais um clamor a paixão do que verdadeiramente apenas mais uma resenha em meu querido espaço neste tão amado site. Para os seis leitores meus que ainda não sabem, heis que este que vos escreve é formado em Gastronomia, antes mesmo de se enveredar para o Design ou a começar a se expressar através de palavras graças ao meu grande amigo Razuchi. Pois bem, escrevo que este será quase um manifesto para quem me lê, pois o filme da semana me fez refletir, e muito, em meu papel neste mundo e se o que estou buscando tem a mesma paixão dos tempos ingênuos de faculdade. Entrei para o curso de gastronomia aos 17 anos, assim como grande parte dos calouros de universidade, minhas responsabilidades eram mais focadas em fazer o copo chegar aos lábios que exatamente entender o que a lecitina faz para que tudo se junte na maionese (isso não aprendi na faculdade, por sinal!). Pode-se pensar que esses, que eram para ser dois, três anos da minha vida não valeram de grande coisa, mas estariam enganados. Assim como grande parte da minha turma do Senac (ambas, por sinal), me voltei para outro rumo, pois a minha paixão com a cozinha foi amor de verão, fugaz, intensa, maravilhosa, breve e tenebrosa!

Minha relação com a comida sempre foi de alento, conforto, aconchego. Era no bolo da minha avó que o machucado do tombo de bicicleta parava de doer; era no McDonald’s de domingo que a família se entendia; e é no carbonara com direito a ovo quebrado no final que afogo minhas mágoas hoje (sejam de amor ou da vida). Ao passo de que o desenho foi sempre meu companheiro, a comida era minha avó, e nada mais encantador do que sua avó, não importa você quem for… Digo isso porque gastronomia, aos 17 anos, me parecia a escolha mais emocional, até que se entra no mercado de trabalho e tudo que era emocionante se desaba: comandas chegando a cada segundo, dedos queimados e cortados, finais de semana mudam de significado, fazendo jornada dupla com um salário de merda (sem contar aquele cara gritando no seu cangote a todo instante querendo comer seu c.. porque os outros pratos da mesa já estão na boqueta e você está nadando fritando a porra da guarnição…). Cozinha não é para qualquer um! Nem um pouco! Porém, ela não deixa de ter todo o lado romântico intrínseco e inerte ao ser humano –  nós evoluímos graças a comida, e quem vive da cozinha e ama a cozinha, não a deixa jamais.

Por isso é tão fácil para mim, se identificar a Jov Favreau. Um ator medíocre, com um timing de comédia bom, tem seu talento, mas nunca deixou de ser, como já dito, medíocre (e para os que acham que medíocre é ser ruim, não é, é ser mediano, ok?). Foi então que, assim como Ben Affleck, descobriu que era muito melhor como diretor do que como ator. Fez filmes muito divertidos, ‘Crime Desorganizado’ e ‘Zathura – Uma Aventura Espacial’, além do excelente ‘Um Duende em Nova York’, mas foi em ‘Homem de Ferro’ que se destacou e trouxe a tona um Robert Downey Jr. impecável, além de unir o melhor de Terrence Howard e Gwyneth Paltrow. Só que veio o merdinha ‘Homem de Ferro 2′, depois ‘Cowboys & Aliens’ e o rendimento caiu…

Favreau passou dois anos em um recesso. Foi repensar tudo que havia feito e os caminhos que estava trilhando e foi buscar o que nós buscamos, paixão no que fazemos. ***(E nesse ponto faço um parêntesis para explicar todo o texto acima contando sobre mim, pois me identifico muito com Jon Favreau. Era um cozinheiro medíocre e não estava feliz, foi então que decidi fazer uma mudança drástica, ir atrás de algo que significasse mais pra mim, fui em busca do ‘grande talvez’ de Rabelais, e espero estar começando uma jornada de êxito)*** Jon pesquisou muito e se doou muito (a ver a habilidade adquirida com a faca). Se aliou a Roy Choi, formado pelo Culinary Institute of America e dono de uma rede gigantesca de trailers de taco com recheio de churrasco coreano, e fez um filme fantástico. Mas quero que fique claro que a comida e a cozinha são apenas pano de fundo para as relações emocionantes do Chef Carl Casper (Favreau) com seu filho, ex-mulher (Sofia Vergara), seu melhor amigo e cozinheiro (John Leguizamo) e com seu trabalho (atenção para a única cena entre Favreau e Downey Jr.!). Assim como Favreau, Carl Casper passa por uma reformulação na vida, a de buscar algo que realmente valha a pena, e acompanhar sua jornada é delicioso.

Um filme doce, engraçado, e que me fez não só lembrar de momentos de indecisão e opção por seguir um sonho, mas também de repensar se o caminho que penso em trilhar é mesmo o que me levará ao ‘grande talvez’. E que, mesmo sendo um ator medíocre e um diretor bom, é sempre melhor ter amigos como Downey Jr., Scarlett Johansson e Dustin Hoffman, ou mesmo, Rafael Zuchi…

Anjos-da-Lei-2-poster-29Jan2014Confesso que fui assistir ao primeiro ‘Anjos da Lei’ no cinema sem grandes pretensões. Já gostava de Channing Tatum por seus trabalhos em ‘Stop-Loss – A Lei da Guerra’ (pouco visto, mas um drama bem legal) e ‘Veia de Lutador’, além de ter um impressionante timing pra comédia, comprovado enquanto assistia sentado na sala escura do Cinemark contracenar com Jonah Hill. Jonah por sua vez nunca tinha me cativado – sempre achei o ‘Superbad: É Hoje’ muito superestimado. Até que vi ‘Moneyball – O Homem Que Mudou O Jogo’, e meus ‘preconceitos’ para com o Sr. Hill caíram por terra – ator excelente, a altura de Brad Pitt e impecável em seus momentos de silêncio. Hill ainda me surpreenderia com seu Donnie Azoff em ‘Lobo de Wall Street’, pelo qual acredito que merecia mais o Oscar que Jared Leto, mas tudo bem, não estou aqui para falar do melhor ator coadjuvante, mas sim para falar Sobre o ‘Anjos da Lei 2′.

Como disse, fui sem pretensão assistir ao primeiro ‘Anjos da Lei’. Acontece que Jonah é um grande fã da série de TV que deu origem ao filme (série que apresentou Johnny Depp ao mundo – ele até faz uma participação!), e, como todo fã, executou um trabalho primoroso (a exemplo de caras como Sam Raimi e ‘Homem-Aranha’ e Zack Snyder em ‘300’). O filme é mais que apenas uma comédia, apresenta um excelente exemplo de ‘bromance’ entre os agentes Jenko (Tatum) e Schimidt (Hill). Com uma química impressionante na tela, Hill e Tatum me fizeram chorar de rir (em especial nas cenas em que estão drogados!).

É de se esperar que após uma grandiosa apresentação como em ‘Anjos da Lei’ que os escritores e atores tentem se superar na sequência. Porém, de longe, fica a desejar. Com um roteiro mais manjado, sem grandes twists ou novidades, é mais uma apresentação da amizade dos dois, e quem sai perdendo somos nós. Não vou dizer que não tem momentos bons – tem momentos excelentes, como quando Schimidt fala que a sala do capitão parece um grande cubo de gelo (Ice Cube faz o capitão, se é que você me entende?!) ou quando o capitão descobre que a filha está saindo com a personagem de Jonah Hill.

No geral, é um filme leve, divertido e que me agradou, sim! Porém, se colocar na balança outros momentos dos atores (juntos ou separados), há um sentimento de desapontamento em ‘Anjos da Lei 2′. Aconselho assistir, sim, mas já vai avisado – não venham reclamar depois!

pompeii_xlgAo ver o trailer de ‘Pompeia’, ainda ano passado (2013), achei que o filme poderia ser algo legal, uma mistura de ‘Gladiador’ com ‘Impacto Profundo’ ou ‘Armageddon’. Não poderia estar mais enganado. Costumo achar um absurdo darem um orçamento gigantesco para filmes nacionais do porte de ‘Até Que A Sorte Nos Separe’ (1 e 2!), mas entendo sua existência, como já dissertei sobre neste artigo aqui. Porém, quando um americano decide gastar milhões em atores de renome, como Kiefer Sutherland (’24 Horas’), Carrie-Anne Moss (‘Matrix’) e Jared Harris (‘Sherlock Holmes – O Jogo das Sombras’), novatos em alta – Kit Harington (o Jon Snow de ‘Game of Thrones’) e Emily Browning (‘Sucker Punch’) – e quinhentos mil efeitos especiais e coliseus falsos, vejo que o cinema ainda tem espaço para erros do porte do Império Romano.

Para quem não conhece, Pompeia era um marco de comércio para Roma, por estar em um localização privilegiada na costa, próxima a capital e no meio do caminho entre o norte e o sul da imensidão imperial. Em 2006, tive a oportunidade de estar no que restou da cidade após sua devastação pelo vulcão (ficou mais conhecida por isso do que por sua importância para o império), e pude ver quão evoluída a cidade era, sendo um dos maiores marcos da época, obliterada do tempo e espaço pela força da natureza.

Pois bem, falemos do filme. ‘Pompeia’ conta a história de um menino bretão, tratado como selvagem, que perde sua família quando criança e é escravizado e transformado em gladiador para o bel prazer da política de pão e circo romana. Em uma interpretação fraca do Sr. Harington (excelente em ‘Game of Thrones’) – que consiste mais em ficar sem camisa do que qualquer outra coisa -, vemos Milo se rebelando contra as correntes que o aprisionam dentro e fora da arena em busca do amor da supostamente não domável Cassia (Emily Browning). Há ainda tentativas de colocar empecilhos políticos e criar um clima de vingança entre o herói de os falastrões de Roma. Tudo parece jogado, e com isso, tudo dá errado.

Ao contrário de épicos como ‘Ben-Hur’ ou o já citado ‘Gladiador’, ‘Pompeia’ trás uma inconsistência tanto em roteiro, quanto direção (que parece não saber o que fazer com os atores – que por sua vez aplicam crises de over-acting em quase todos os frames da película). Sem conteúdo nem profundidade, é um filme para se passar em fast-forward, sem perder muito conteúdo. O que poderia ser uma história incrível dos tão divertidos filmes de desastre acaba por ser uma história de amor fraca, superficial e mal acabada. Minha dica é, não perca seu tempo. Ainda me arrependo de ter perdido o meu.

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Quando penso em filme de guerra, logo me vem a mente clássicos como ‘Nascido para Matar’, ‘Apocalypse Now’ ou mesmo ‘Além da Linha Vermelha’. E o que todos esses títulos têm em comum, além de retratar o terror, estresse e extremos de um homem lutando (ou treinando para lutar) pelos ideais de homens sentados atrás de uma mesa, eles falam da camaradagem, ou mesmo a falta dela, e dos laços que um ambiente como tal provoca em um homem. Já relatei sobre a guerra aqui mesmo no ‘Sobre o…’ com o ‘O Grande Herói’ e também no texto da série ‘Fleming’. É um tema que me agrada e sempre o fez, desde a época do colégio. Mas, mesmo gostando do tema e tendo estudado um pouco além do que me era passado nos corredores do Colégio Notre Dame de Campinas, não sabia da história de sete homens que foram a guerra, já em vias de terminar, em busca das obras de arte furtadas pela Alemanha em mais uma das megalomanias do Fuhrer.

Os ‘Monuments Men’, sancionados pelo presidente Roosevelt, saíram de suas posições como teóricos em arte, arquitetura e dança em seus respectivos “esconderijos” para lutar pelo clamado legado da humanidade em meio a desgraça e destruição que uma guerra provoca. Ao assistir o trailer, achei que se tratava de mais um ‘Onze Homens’ da vida, desta vez com direção do próprio Clooney, passado na segunda guerra. Mas o filme, que chega em breve às locadoras/sistemas de locação pela TV a cabo/etc, trás muito mais que isso. George Clooney tem se mostrado cada vez mais seguro atrás da câmera e, no caso de ‘Caçadores de Obras-Primas’ parece muito mais confortável na posição e brinca de atuar com amigos – afinal de contas, o elenco todo é extremamente gabaritado: Matt Damon, Bill Murray, John Goodman, Cate Blanchett, Bob Balaban, Hugh Bonneville e Jean Dujardin.

Devo confessar que prefiro Clooney como diretor que como ator. Nunca dei o devido crédito a ele na frente da lente, e acho que ‘E.R’ estragou qualquer chance de redenção dele no meu conceito (fiquem à vontade de discordar! rsrs). Tinha um certo preconceito com relação a ele em qualquer posição, para ser sincero – sempre me pareceu somente um rostinho bonito do que um verdadeiro ator/diretor – mas tudo mudou com o excelente ‘Tudo pelo Poder’, um drama centrado em uma disputa política, até aceito ele como ator neste, embora quem carregue o filme é o, na minha humilde opinião, o sempre impecável Ryan Gosling. Enfim… neste filme está seguro e conduz a película com segurança e conforto.

Para quem não sabe, cerca de 7 milhões de obras de arte foram ‘confiscadas’ pelos nazistas durante a segunda guerra. Eram chamadas de retiradas ‘justas’ por serem de coleções privadas de judeus. Desses 7 milhões, por volta de 5 milhões foram recuperadas, dentre esculturas, pinturas, gravuras, esboços, etc. Tudo isso, graças aos ‘Monuments Men’.

Mais do que retratar a camaradagem em busca do objetivo de cuidar de tesouros nacionais, o filme é um relato do valor das obras para a humanidade. Podemos perder uma geração inteira nas trincheiras, mas a humanidade ressurgirá de alguma maneira. Se é retirada toda sua produção intelectual, é como se esta geração não tivesse existido.

Com toda certeza, se esses sete homens não estivessem lá para proteger este legado, não teríamos hoje nada do que, supostamente, não conseguimos viver sem. Seus celulares, computadores, carros, canetas, enfim, tudo que toca seria diferente se tivéssemos essa lacuna em nossa história. Devemos a esses homens o que temos e o que somos hoje.

The-Monuments-MenOs ‘Monuments Men’ originais

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A mãe apronta a filha para a escola, estão atrasadas. Uma buzina invade pela janela, na qual a mãe se debruça e pede para que espere um momento, enquanto a filha põe o sapato e corre a porta. É então que a mãe começa o preparo da comida do almoço do marido. Faz arroz, curry, prepara a vagem e põe o naan na chapa para dourar dos dois lados. Ouve uma bicicleta parar a entrada do prédio e, em dois minutos a campainha toca. -“Um momento, por favor!”. A mãe agora termina de colocar toda a refeição em sua devida repartição, empilha tudo, lacra, fecha com a proteção de tecido e, enquanto o homem pega o conjunto de marmitas de sua mão, dá uns tapas delicados com a intenção de arrumar, com todo o carinho, para o marido merece receber seu almoço em seu primor.

Assim começa ‘The Lunchbox’, lançado ano passado (2013) e ainda sem previsão de vinda para o Brasil. Aos que desconhecem o sistema de alimentação na Índia, é preciso saber duas coisas: a comida caseira é sempre a preferência (com exceção dos que comem apenas uma ou duas bananas no lugar da refeição), e o sistema de distribuição da comida é de dar inveja a qualquer empresa de motoboy de São Paulo. Para entenderem, melhor deixar para meu líder espiritual (Anthony Bourdain) explicar:

 Assistam a partir dos 5:50!

 

São, diariamente, 200 mil refeições entregues por cerca de 5 mil boys em Mumbai, cenário do filme. Nele, duas dessas refeições são trocadas em meio às outras 199.998 restantes, e o que a princípio seria péssimo, acaba se tornando obra do destino. Ila, a mãe da cena descrita acima, é uma mulher em tédio, em busca da felicidade no casamento. Na Índia, ainda se acredita que um homem se fisga pelo estômago, porém, o marido de Ila parece sempre mais interessado no trabalho do que no cuidado primoroso aplicado em cada refeição pela mulher – tanto que normalmente a marmita volta com restos. Num belo dia, Ila abre o pacote e o encontra vazio. Mais tarde pergunta para o marido se gostou do prato, e ele diz que estava o.k. Sr. Fernandes (sim, o nome dele é Fernandes mesmo!), um funcionário em vésperas de se aposentar, estranha o sabor da comida de sua marmita. Chega até a acreditar que o restaurante do qual pede seu almoço mudou de cozinheiro, já que a refeição nunca havia estado tão boa.

Então no dia seguinte ela manda um bilhete na repartição do pão, e então começa a troca de cartas entre Ila e Sr. Fernandes. O que a princípio é somente desabafos de vidas tediosas em suas maneiras, acaba sendo uma espécie de fuga do torpor pelo qual ambas personagens passam e vêem a vida passar em suas respectivas infelicidades. Encontram, então, um no outro, um porto seguro para confiarem e serem confidentes, seja para fugir de um marido que a ignora, seja para lidar com a perda da mulher.

Um filme doce, em que a atuação sobressai pelo sofrimento e pela fuga de cada personagem. Uma maneira encantadora de tornar a sentir o sabor da vida, através justamente do sabor da comida.

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Um homem, elegante, entra em um bar. Jazz toca ao fundo, enquanto adentra rumo ao balcão. Chegando lá, estende uma nota e pede:

– Um martini, três partes de gin, uma de vodka, batido, não misturado.

Ao contrário do que se espera, o bartender o entrega uma cerveja.

Não por acaso o cenário é bastante familiar. O homem elegante em questão é Ian Fleming, autor dos romances de James Bond e que dá nome a série que mostra a origem do criador do espião mais famoso do mundo. Assim como John Le Carré e Robert Ludlum, entre outros escritores do gênero, Fleming também foi agente de inteligência e contra-inteligência para seu país. Assim como os criadores de George Smiley e Jason Bourne, o criador de Bond esteve na ativa, e usou muito disto com fonte para criar não somente sua personagem, como as fantasiosas aventuras pelas quais o agente 007 passa em seus romances.

A série acompanha o retorno de Fleming ao exército (para quem não sabe, ele desertou após ter sido designado para a base em Shanghai), o drama de viver à sombra do irmão mais velho Peter, bem-sucedido escritor e herói de guerra, e da lembrança do pai – do qual sua mãe insiste em voltar à tona toda vez que discute com.

Esta produção da BBC America, assim como em ‘Sherlock’, prima pela qualidade do produto final, tendo apenas quatro episódios da primeira temporada, iniciada este ano. Além de ter um cuidado majestroso no design de produção, ‘Fleming’ também trás pinceladas de fantasia à realidade do autor de Bond em seu início de carreira como espião, e uma impecável escolha de elenco, a começar por Dominic Cooper. Para quem não conhece, Cooper pode ser visto como o par romântico de Amanda Seyfried em ‘Mamma Mia’, como o tutor-vampiro de Abe Lincoln em ‘Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros’, ou mais recentemente como o antagonista a Aaron Paul em ‘Need for Speed’. Como podem ver, Dominic é um ator versátil, e está impressionantemente bem como o conquistador inveterado Ian Fleming, consolidando ainda mais seu potencial como futuro da dramaturgia inglesa. Além dele, destaco a presença de Lara Pulver como futura esposa de Fleming. Não a conhecia até sua representação de Irene Adler na segunda temporada da série ‘Sherlock’, em que consegue duelar com Benedict Cumberbatch, de maneira magnífica, pelo melhor em cena.

Para quem, como eu, gosta de heróis falhos, com quem conseguimos criar uma identificação, vai gostar da série.

Cinemascope-Pôster-O-Grande-HeróiEu nunca me acostumei com a ideia de que Marky Mark – pra quem não sabe do que estou falando, vejam o vídeo no final do texto – viesse a ser um bom ator, porém depois de TED, do sempre ácido Seth Macfarlane, e de apresentações condizentes de seu salário, como em ‘Infiltrados’ e ‘Os Outros Caras’ (sim, eu gosto de ‘Os Outros Caras’!), Mark Whalberg tem se mostrado um crescente dominador dos filmes de ação que necessitam de alguém com um timing de comédia – assistam ‘Sem Dor, Sem Ganho’ e vão entender o que estou falando.

Mas esse não é o caso. ‘O Grande Herói’ conta as horas mais tensas da vida de Marcus Luttrell, o único sobrevivente dos Navy Seals em uma operação no Afeganistão conhecida como ‘Operation Red Wings’. Luttrell, em conjunto com outros três Seals estavam patrulhando uma região afegã em busca de um importante membro do talibã, Ahmad Shah, porém, ao encontrar com, aparentemente, civis das tribos da região, sofrem uma emboscada. Wahlberg está muito a vontade no papel, com a experiência adquirida ao longo da carreira, e uma segurança na personagem do herói, transita neste drama de guerra, regado a muita bala, sangue e terra.

Os Navy Seals são a melhor e mais especializada força tarefa americana, com treinamentos duríssimos, e responsável pelas mais importantes operações das forças armadas dos EUA (não à toa, foram responsáveis pela morte de Osama Bin Laden). Porém o filme não somente só enaltece os integrantes desta tropa de elite, mas mostra o companheirismo e a força em busca da sobrevivência, mesmo quando todas as probabilidades são contra você, destaque na entrega dos coadjuvantes de Wahlberg, Ben Foster, Emile Hirsch e Taylor Kitsch.

Baseado em fatos reais, a câmera sempre em movimento do diretor Peter Berg (responsável pelo péssimo ‘Battleship: A Batalha dos Mares’) vai dando o tom de tensão enquanto a tropa tenta entrar em contato com a base, em um ambiente inóspito e hostil, cercado de inimigos. Ao encontrar com civis, a trama sofre seu twist, em que um dilema instaurado acaba por dissolver a equipe ao longo dos três dias em que o filme se desenrola (na realidade, o embate durou cinco dias).

Não deixa de ser piegas esse americanismo exacerbado, porém, a diversão é garantida para quem gosta de ação!

Ela-pôster

“…Às vezes, é como se eu tivesse sentido tudo que irei sentir… E de agora em diante eu não vou sentir nada novo! Apenas, versões menores do que já senti.”

Na sociedade de hoje, praticamente, se você não existe online, você não existe offline. Acredito que nossa relação com as máquinas e inteligências artificiais ainda não chegou ao nível de suplantar nossa necessidade de contato físico, mas Spike Jonze nos faz indagar sobre essas questões quase que espirituais, da mudança e relação entre o plano físico e o virtual (quase como um plano espiritual).

A história de ‘Ela’ debate de maneira intrigante e é incisivo no questionamento do limiar entre as relações, até mesmo as sintéticas. Joaquin Phoenix interpreta Theodore Twombly, um escritor de uma espécie de correio elegante do futuro, com habilidades invejosas de identificar nuâncias nas relações entre as pessoas para quem escreve e, pelas pessoas que supostamente escreveriam as cartas. Encontramos a personagem em estado entorpecido após o término do casamento, com dificuldade no âmbito social, e ao mesmo tempo, o antagonismo com que escreve cartas com um sentimentalismo enorme e tocante. Ouvimos a frase lá em cima em mais um low point da vida de Theodore, como testemunhas da queda do herói após um encontro um tanto quanto estranho.

Jonze não critica apenas o distanciamento das pessoas através da tecnologia (porque embora estejamos conectados 24hs/dia, estamos cada vez mais distantes uns dos outros – se pergunte se conhece seu vizinho!); trás à tona e nos cutuca para saber qual o limite para ser feliz. Ele o faz plea relação de Theodore com Samantha, interpretada por Scarlett Johansson (somente a voz, em uma interpretação doce e maravilhosa), um sistema operacional revolucionário por ter uma inteligência artificial avançadíssima, capaz de sentir e nos fazer sentir com e por ela – acredite, você se apaixonará, como o faz a personagem de Joaquin.

Acompanhamos as reviravoltas da vida de Theodore que, com o toque gentil de Samantha, começa a voltar a ter cor, sentido e sentimento. Em uma produção de um futuro com um ar retrô, das roupas às escolhas de cores e mobiliário, Theodore vai se re-descobrindo ao lado de Samantha, saindo do torpor em que se encontrava, e iniciando uma jornada apaixonante, se jogando de cabeça no amor, não somente pelo OS, mas pelo mundo e pela vida, e começa a sentir coisas novas de novo, como se nossas almas fossem capazes de encontrar direção também no virtual.