The-Giver-Brenton-Thwaites-character-poster-691x1024Respire fundo. Esqueça tudo que sente. Se imagine em um mundo perfeito em que não existem diferenças, em que todos são iguais, em que sua família é escolhida para você, doenças foram dizimadas, assim como fome e desastres naturais. O mundo perfeito é onde encontramos Jonas, um jovem às vésperas de se encaixar em um setor profissional, baseado em suas aptidões físicas e mentais, assim como Tris, em Divergente. E, assim como Tris, Jonas não se encaixa em nenhuma profissão desta nova realidade pós-apocalíptica, ele na verdade transita entre todas as aptidões e, portanto, tem o perfil para receber o legado de lembranças da humanidade, que jazem dentro da mente do homônimo do título, o Doador de memórias (Jeff Bridges).

Já comentado aqui, os novos romances juvenis têm trazido consigo essa dimensão supostamente perfeita que deve ser quebrada – muito melhor do que a febre anterior de vampiros que brilham no escuro! Jonas, ao receber a autorização para mentir (até então algo proibido) e quando começa a ser concebido com as lembranças dadas pelo doador, começa a sentir. É interessante a interpretação do filme, de que um remédio dado em doses diárias nos tiraria também a possibilidade de sentir, de ver cor, de amar – faço um paralelo ao que acontece com nossas vidas em nosso cotidiano conturbado, em que nos deparamos com a conformidade da vida contemporânea de ir ao trabalho, voltar, comer, dormir, ver tv (sem perceber que estamos vivendo, e não sobrevivendo) – para se ter noção, 2013 foi o ano em que cerca de 42% da população não consumiu cultura fora de suas casas. Assim como Tris e Katniss, Jonas parte em sua jornada de rebeldia aos parâmetros da atual civilização (liderados pela sempre maravilhosa Meryl Streep). E assim como seu homônimo da Bíblia, parte em uma jornada (comissionada por seu mestre Doador – em um paralelo ao Deus bíblico) rumo a salvação de um povo que é violento, não em questões físicas, mas em limitar a liberdade de se viver sem emoção.

Um filme doce, que impõe sérias questões ao nosso sobreviver contemporâneo, esperando, assim como acontece depois de 15 minutos de película, dar mais cor ao nosso cotidiano. E quem não gostaria de ter Jeff Bridges como Deus, não é mesmo?

sq_million_dollar_armAviso aos amantes de ‘Jerry Maguire’, assistam a esse filme. Pode não ter a participação ácida e emocionante de Cuba Gooding Jr, nem os espasmos bizarros da cientologia ambulante que é Tom Cruise, mas tem muito do ambiente e do coração do filme que eternizou o amado ‘SHOW ME THE MONEY’. Embora não tenha astros jovens de peso, como Cruise ou Gooding Jr., ‘Million Dollar Arm’ trás consigo uma plotline meio parecida em seu começo: um agente que não está mais na empresa em que trabalhava, que é passado para trás por um atleta de contrato milionário, e que tem que se virar. Além disso, ambas personagens que fazem os agentes esportivos são esnobes e têm que passar por obstáculos para verdadeiramente perceberem o que o esporte trás embutido em si, valores mais importantes que dinheiro ou fama (embora eu e Razuchi discordemos desta parte – ‘dinheiro e gatinhas’ é nosso lema!).

Jon Hamm faz o papel do pedante JB, agente que um dia teve uma cartela enorme de clientes e que, há três anos, junto com seu grande amigo Aash, montou sua própria empresa. O encontramos tentando fechar negócio com um linebacker da NFL, mas o contrato não desenrola e eles se veem rumo a falência e vão tomar um porre pra esquecer. Como Aash é indiano, em meio a sua bebedeira, sintoniza a TV no jogo de críquete, que JB (como seria de praxe da personagem) já começa a implicar com. Aash vai embora rumo a esposa e filhos em um taxi, e JB fica a contar botões, até que Susan Boyle (SIM! SUSAN BOYLE!) aparece pela primeira vez no ‘Britain’s Got Talent’, estamos em 2008, por sinal.

Como acontece em muitos casos, o insight vem de coisas desconexas que, por alguma razão, começam a fazer parte da mesma simbiose, e JB tem uma ideia de gênio: desenvolve um concurso em que dois jovens indianos têm a chance de fazer um tryout (aqui é chamado de ‘peneirão’) para uma vaga na Major League Baseball e, se ganhar, ganham 1 milhão de dólares, daí o título não somente do filme, como também do concurso. Uma jogada de gênio, em que a MLB poderia entrar em um mercado de um bilhão de possíveis espectadores, e tiraria JB e Aash da falência.

Isto tudo parece mentira, coisa viajante de roteirista, mas devo dizer que o filme é baseado em fatos reais. Este concurso existiu de verdade e dois meninos indianos vieram para este lado do globo tentar a sorte como possíveis jogadores de baseball. Joguem ainda nessa tigela participações de Alan Arkin (sempre excelente) como o único e sempre dormindo olheiro disposto a ir a Índia, uma jornada por um país de extremos (uma hora está tudo cheirando maravilhosamente bem, outra hora está tudo fedendo) até bem parecido com o Brasil (vide a maneira de burlar o sistema…), e a, por falta de outra palavra, maravilhosa Lake Bell como a vizinha médica, além da trupe de indianos, em especial Amit, que sonha em ser técnico de baseball na Índia. Todos funcionam como agentes catalisadores das mudanças de JB para uma pessoa melhor, mesmo que esse melhor não seja com dinheiro e gatinhas…

Chef-PosterModéstia a parte, acredito que este texto tenha virado mais um clamor a paixão do que verdadeiramente apenas mais uma resenha em meu querido espaço neste tão amado site. Para os seis leitores meus que ainda não sabem, heis que este que vos escreve é formado em Gastronomia, antes mesmo de se enveredar para o Design ou a começar a se expressar através de palavras graças ao meu grande amigo Razuchi. Pois bem, escrevo que este será quase um manifesto para quem me lê, pois o filme da semana me fez refletir, e muito, em meu papel neste mundo e se o que estou buscando tem a mesma paixão dos tempos ingênuos de faculdade. Entrei para o curso de gastronomia aos 17 anos, assim como grande parte dos calouros de universidade, minhas responsabilidades eram mais focadas em fazer o copo chegar aos lábios que exatamente entender o que a lecitina faz para que tudo se junte na maionese (isso não aprendi na faculdade, por sinal!). Pode-se pensar que esses, que eram para ser dois, três anos da minha vida não valeram de grande coisa, mas estariam enganados. Assim como grande parte da minha turma do Senac (ambas, por sinal), me voltei para outro rumo, pois a minha paixão com a cozinha foi amor de verão, fugaz, intensa, maravilhosa, breve e tenebrosa!

Minha relação com a comida sempre foi de alento, conforto, aconchego. Era no bolo da minha avó que o machucado do tombo de bicicleta parava de doer; era no McDonald’s de domingo que a família se entendia; e é no carbonara com direito a ovo quebrado no final que afogo minhas mágoas hoje (sejam de amor ou da vida). Ao passo de que o desenho foi sempre meu companheiro, a comida era minha avó, e nada mais encantador do que sua avó, não importa você quem for… Digo isso porque gastronomia, aos 17 anos, me parecia a escolha mais emocional, até que se entra no mercado de trabalho e tudo que era emocionante se desaba: comandas chegando a cada segundo, dedos queimados e cortados, finais de semana mudam de significado, fazendo jornada dupla com um salário de merda (sem contar aquele cara gritando no seu cangote a todo instante querendo comer seu c.. porque os outros pratos da mesa já estão na boqueta e você está nadando fritando a porra da guarnição…). Cozinha não é para qualquer um! Nem um pouco! Porém, ela não deixa de ter todo o lado romântico intrínseco e inerte ao ser humano –  nós evoluímos graças a comida, e quem vive da cozinha e ama a cozinha, não a deixa jamais.

Por isso é tão fácil para mim, se identificar a Jov Favreau. Um ator medíocre, com um timing de comédia bom, tem seu talento, mas nunca deixou de ser, como já dito, medíocre (e para os que acham que medíocre é ser ruim, não é, é ser mediano, ok?). Foi então que, assim como Ben Affleck, descobriu que era muito melhor como diretor do que como ator. Fez filmes muito divertidos, ‘Crime Desorganizado’ e ‘Zathura – Uma Aventura Espacial’, além do excelente ‘Um Duende em Nova York’, mas foi em ‘Homem de Ferro’ que se destacou e trouxe a tona um Robert Downey Jr. impecável, além de unir o melhor de Terrence Howard e Gwyneth Paltrow. Só que veio o merdinha ‘Homem de Ferro 2′, depois ‘Cowboys & Aliens’ e o rendimento caiu…

Favreau passou dois anos em um recesso. Foi repensar tudo que havia feito e os caminhos que estava trilhando e foi buscar o que nós buscamos, paixão no que fazemos. ***(E nesse ponto faço um parêntesis para explicar todo o texto acima contando sobre mim, pois me identifico muito com Jon Favreau. Era um cozinheiro medíocre e não estava feliz, foi então que decidi fazer uma mudança drástica, ir atrás de algo que significasse mais pra mim, fui em busca do ‘grande talvez’ de Rabelais, e espero estar começando uma jornada de êxito)*** Jon pesquisou muito e se doou muito (a ver a habilidade adquirida com a faca). Se aliou a Roy Choi, formado pelo Culinary Institute of America e dono de uma rede gigantesca de trailers de taco com recheio de churrasco coreano, e fez um filme fantástico. Mas quero que fique claro que a comida e a cozinha são apenas pano de fundo para as relações emocionantes do Chef Carl Casper (Favreau) com seu filho, ex-mulher (Sofia Vergara), seu melhor amigo e cozinheiro (John Leguizamo) e com seu trabalho (atenção para a única cena entre Favreau e Downey Jr.!). Assim como Favreau, Carl Casper passa por uma reformulação na vida, a de buscar algo que realmente valha a pena, e acompanhar sua jornada é delicioso.

Um filme doce, engraçado, e que me fez não só lembrar de momentos de indecisão e opção por seguir um sonho, mas também de repensar se o caminho que penso em trilhar é mesmo o que me levará ao ‘grande talvez’. E que, mesmo sendo um ator medíocre e um diretor bom, é sempre melhor ter amigos como Downey Jr., Scarlett Johansson e Dustin Hoffman, ou mesmo, Rafael Zuchi…

Anjos-da-Lei-2-poster-29Jan2014Confesso que fui assistir ao primeiro ‘Anjos da Lei’ no cinema sem grandes pretensões. Já gostava de Channing Tatum por seus trabalhos em ‘Stop-Loss – A Lei da Guerra’ (pouco visto, mas um drama bem legal) e ‘Veia de Lutador’, além de ter um impressionante timing pra comédia, comprovado enquanto assistia sentado na sala escura do Cinemark contracenar com Jonah Hill. Jonah por sua vez nunca tinha me cativado – sempre achei o ‘Superbad: É Hoje’ muito superestimado. Até que vi ‘Moneyball – O Homem Que Mudou O Jogo’, e meus ‘preconceitos’ para com o Sr. Hill caíram por terra – ator excelente, a altura de Brad Pitt e impecável em seus momentos de silêncio. Hill ainda me surpreenderia com seu Donnie Azoff em ‘Lobo de Wall Street’, pelo qual acredito que merecia mais o Oscar que Jared Leto, mas tudo bem, não estou aqui para falar do melhor ator coadjuvante, mas sim para falar Sobre o ‘Anjos da Lei 2′.

Como disse, fui sem pretensão assistir ao primeiro ‘Anjos da Lei’. Acontece que Jonah é um grande fã da série de TV que deu origem ao filme (série que apresentou Johnny Depp ao mundo – ele até faz uma participação!), e, como todo fã, executou um trabalho primoroso (a exemplo de caras como Sam Raimi e ‘Homem-Aranha’ e Zack Snyder em ‘300’). O filme é mais que apenas uma comédia, apresenta um excelente exemplo de ‘bromance’ entre os agentes Jenko (Tatum) e Schimidt (Hill). Com uma química impressionante na tela, Hill e Tatum me fizeram chorar de rir (em especial nas cenas em que estão drogados!).

É de se esperar que após uma grandiosa apresentação como em ‘Anjos da Lei’ que os escritores e atores tentem se superar na sequência. Porém, de longe, fica a desejar. Com um roteiro mais manjado, sem grandes twists ou novidades, é mais uma apresentação da amizade dos dois, e quem sai perdendo somos nós. Não vou dizer que não tem momentos bons – tem momentos excelentes, como quando Schimidt fala que a sala do capitão parece um grande cubo de gelo (Ice Cube faz o capitão, se é que você me entende?!) ou quando o capitão descobre que a filha está saindo com a personagem de Jonah Hill.

No geral, é um filme leve, divertido e que me agradou, sim! Porém, se colocar na balança outros momentos dos atores (juntos ou separados), há um sentimento de desapontamento em ‘Anjos da Lei 2′. Aconselho assistir, sim, mas já vai avisado – não venham reclamar depois!

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Este é meu primeiro texto sobre um game e, para tanto, queria que fosse um jogo que tenha um significado especial para mim, e este tenho como um dos melhores que joguei em muito tempo. Ele pode não ter os super gráficos de jogos atuais, como ‘Thief’ ou ‘Titanfall’, nem ser em formato sandbox como a série ‘Assassin’s Creed’ ou ‘InFamous Second Sun’, mas, mesmo sendo um jogo relativamente simples, me ganhou pela história, beleza e jogabilidade.

Como tem acontecido muito ultimamente, ‘Bastion’ se passa em uma terra pós-apocalíptica (‘The Last of Us’ e a porrada de filmes, games e séries de zumbis comprovam a tendência, vale ler o post ‘Sobre o… Todo Mundo Quase Morto’!). Você joga com o Kid/O Moleque, e com ele, tem a missão de recuperar a ilha que dá nome ao jogo, uma espécie de jardim do Éden da sobrevivência de Caelondia, a cidade do Kid e do Stranger (um velho sabichão que narra seu percurso e te orienta em sua evolução no jogo).

Uma mistura de RPG com Beat’em All, categoria muito famosa em arcades e especialmente familiar para as crianças da década de 90 (quem for da época, lembrará as festinhas infantis com games como ‘Golden Axe’ ou ‘Cadillacs and Dinosaurs’, sempre regadas a copos descartáveis de refrigerante quase sem gás e enroladinhos de salsicha meio frios, mas sempre gostosos). Talvez por isso mesmo que o game me chamou tanto a atenção. A pancadaria do menino porradeiro, usando diferentes armas, que evoluem conforme coleta itens e reconstrói o ‘Bastion’; a beleza do jogo, feito à base de pinturas em aquarela, com influências islâmicas e orientais na construção das fases; a narração de voz grave por parte do Stranger; a trilha sonora que mistura música de base indiana, guitarras, música sulista americana com toques de folk; uma história abarretadora com um plot twist inesperado; uma mecânica fácil de pegar e difícil de largar. Enfim, vale conferir o Gameplay (lá embaixo!) que fiz com o Rafa Zuchi, do canal ‘Desde o Atari’ e dono desse site!

Um game que me leva a infância, remetendo a outros excelentes heróis, como Link, Mario e Sonic… Acho que vale o primeiro post sobre jogos, seja por ser uma experiência incrível para o jogador, ou somente para dar risadas do que a gente fala nos vídeos.

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A mãe apronta a filha para a escola, estão atrasadas. Uma buzina invade pela janela, na qual a mãe se debruça e pede para que espere um momento, enquanto a filha põe o sapato e corre a porta. É então que a mãe começa o preparo da comida do almoço do marido. Faz arroz, curry, prepara a vagem e põe o naan na chapa para dourar dos dois lados. Ouve uma bicicleta parar a entrada do prédio e, em dois minutos a campainha toca. -“Um momento, por favor!”. A mãe agora termina de colocar toda a refeição em sua devida repartição, empilha tudo, lacra, fecha com a proteção de tecido e, enquanto o homem pega o conjunto de marmitas de sua mão, dá uns tapas delicados com a intenção de arrumar, com todo o carinho, para o marido merece receber seu almoço em seu primor.

Assim começa ‘The Lunchbox’, lançado ano passado (2013) e ainda sem previsão de vinda para o Brasil. Aos que desconhecem o sistema de alimentação na Índia, é preciso saber duas coisas: a comida caseira é sempre a preferência (com exceção dos que comem apenas uma ou duas bananas no lugar da refeição), e o sistema de distribuição da comida é de dar inveja a qualquer empresa de motoboy de São Paulo. Para entenderem, melhor deixar para meu líder espiritual (Anthony Bourdain) explicar:

 Assistam a partir dos 5:50!

 

São, diariamente, 200 mil refeições entregues por cerca de 5 mil boys em Mumbai, cenário do filme. Nele, duas dessas refeições são trocadas em meio às outras 199.998 restantes, e o que a princípio seria péssimo, acaba se tornando obra do destino. Ila, a mãe da cena descrita acima, é uma mulher em tédio, em busca da felicidade no casamento. Na Índia, ainda se acredita que um homem se fisga pelo estômago, porém, o marido de Ila parece sempre mais interessado no trabalho do que no cuidado primoroso aplicado em cada refeição pela mulher – tanto que normalmente a marmita volta com restos. Num belo dia, Ila abre o pacote e o encontra vazio. Mais tarde pergunta para o marido se gostou do prato, e ele diz que estava o.k. Sr. Fernandes (sim, o nome dele é Fernandes mesmo!), um funcionário em vésperas de se aposentar, estranha o sabor da comida de sua marmita. Chega até a acreditar que o restaurante do qual pede seu almoço mudou de cozinheiro, já que a refeição nunca havia estado tão boa.

Então no dia seguinte ela manda um bilhete na repartição do pão, e então começa a troca de cartas entre Ila e Sr. Fernandes. O que a princípio é somente desabafos de vidas tediosas em suas maneiras, acaba sendo uma espécie de fuga do torpor pelo qual ambas personagens passam e vêem a vida passar em suas respectivas infelicidades. Encontram, então, um no outro, um porto seguro para confiarem e serem confidentes, seja para fugir de um marido que a ignora, seja para lidar com a perda da mulher.

Um filme doce, em que a atuação sobressai pelo sofrimento e pela fuga de cada personagem. Uma maneira encantadora de tornar a sentir o sabor da vida, através justamente do sabor da comida.

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Um homem, elegante, entra em um bar. Jazz toca ao fundo, enquanto adentra rumo ao balcão. Chegando lá, estende uma nota e pede:

– Um martini, três partes de gin, uma de vodka, batido, não misturado.

Ao contrário do que se espera, o bartender o entrega uma cerveja.

Não por acaso o cenário é bastante familiar. O homem elegante em questão é Ian Fleming, autor dos romances de James Bond e que dá nome a série que mostra a origem do criador do espião mais famoso do mundo. Assim como John Le Carré e Robert Ludlum, entre outros escritores do gênero, Fleming também foi agente de inteligência e contra-inteligência para seu país. Assim como os criadores de George Smiley e Jason Bourne, o criador de Bond esteve na ativa, e usou muito disto com fonte para criar não somente sua personagem, como as fantasiosas aventuras pelas quais o agente 007 passa em seus romances.

A série acompanha o retorno de Fleming ao exército (para quem não sabe, ele desertou após ter sido designado para a base em Shanghai), o drama de viver à sombra do irmão mais velho Peter, bem-sucedido escritor e herói de guerra, e da lembrança do pai – do qual sua mãe insiste em voltar à tona toda vez que discute com.

Esta produção da BBC America, assim como em ‘Sherlock’, prima pela qualidade do produto final, tendo apenas quatro episódios da primeira temporada, iniciada este ano. Além de ter um cuidado majestroso no design de produção, ‘Fleming’ também trás pinceladas de fantasia à realidade do autor de Bond em seu início de carreira como espião, e uma impecável escolha de elenco, a começar por Dominic Cooper. Para quem não conhece, Cooper pode ser visto como o par romântico de Amanda Seyfried em ‘Mamma Mia’, como o tutor-vampiro de Abe Lincoln em ‘Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros’, ou mais recentemente como o antagonista a Aaron Paul em ‘Need for Speed’. Como podem ver, Dominic é um ator versátil, e está impressionantemente bem como o conquistador inveterado Ian Fleming, consolidando ainda mais seu potencial como futuro da dramaturgia inglesa. Além dele, destaco a presença de Lara Pulver como futura esposa de Fleming. Não a conhecia até sua representação de Irene Adler na segunda temporada da série ‘Sherlock’, em que consegue duelar com Benedict Cumberbatch, de maneira magnífica, pelo melhor em cena.

Para quem, como eu, gosta de heróis falhos, com quem conseguimos criar uma identificação, vai gostar da série.

Cinemascope-Pôster-O-Grande-HeróiEu nunca me acostumei com a ideia de que Marky Mark – pra quem não sabe do que estou falando, vejam o vídeo no final do texto – viesse a ser um bom ator, porém depois de TED, do sempre ácido Seth Macfarlane, e de apresentações condizentes de seu salário, como em ‘Infiltrados’ e ‘Os Outros Caras’ (sim, eu gosto de ‘Os Outros Caras’!), Mark Whalberg tem se mostrado um crescente dominador dos filmes de ação que necessitam de alguém com um timing de comédia – assistam ‘Sem Dor, Sem Ganho’ e vão entender o que estou falando.

Mas esse não é o caso. ‘O Grande Herói’ conta as horas mais tensas da vida de Marcus Luttrell, o único sobrevivente dos Navy Seals em uma operação no Afeganistão conhecida como ‘Operation Red Wings’. Luttrell, em conjunto com outros três Seals estavam patrulhando uma região afegã em busca de um importante membro do talibã, Ahmad Shah, porém, ao encontrar com, aparentemente, civis das tribos da região, sofrem uma emboscada. Wahlberg está muito a vontade no papel, com a experiência adquirida ao longo da carreira, e uma segurança na personagem do herói, transita neste drama de guerra, regado a muita bala, sangue e terra.

Os Navy Seals são a melhor e mais especializada força tarefa americana, com treinamentos duríssimos, e responsável pelas mais importantes operações das forças armadas dos EUA (não à toa, foram responsáveis pela morte de Osama Bin Laden). Porém o filme não somente só enaltece os integrantes desta tropa de elite, mas mostra o companheirismo e a força em busca da sobrevivência, mesmo quando todas as probabilidades são contra você, destaque na entrega dos coadjuvantes de Wahlberg, Ben Foster, Emile Hirsch e Taylor Kitsch.

Baseado em fatos reais, a câmera sempre em movimento do diretor Peter Berg (responsável pelo péssimo ‘Battleship: A Batalha dos Mares’) vai dando o tom de tensão enquanto a tropa tenta entrar em contato com a base, em um ambiente inóspito e hostil, cercado de inimigos. Ao encontrar com civis, a trama sofre seu twist, em que um dilema instaurado acaba por dissolver a equipe ao longo dos três dias em que o filme se desenrola (na realidade, o embate durou cinco dias).

Não deixa de ser piegas esse americanismo exacerbado, porém, a diversão é garantida para quem gosta de ação!